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MEIO AMBIENTE

Por um novo “MINDSET” para a realização de projetos, programas e negócios através de financiamento combinado

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Por um novo “MINDSET” para a realização de projetos, programas e negócios através de financiamento combinado. (Foto: ARPSI INSTITUTE).

O “Mindset” derivado do modelo de gestão organizacional, dominante até o século passado, é visto, açodadamente, como determinante para o estabelecimento de pensamentos e padrões de comportamentos que agudizaram os problemas econômicos, políticos, sociais e ambientais.


Ao longo do século XX, o modelo mental (“Mindset”) dominante sofreu duras críticas, principalmente após os trabalhos de Thomas Kuhn a respeito dos “critérios de evolução das teorias científicas ao longo da história”.

Coube, então, aos epistemólogos (filósofos da ciência), tais quais, Piaget, Bachelar, Foucault, Popper, Habermas, entre outros, a tarefa de redefinir a configuração do pensamento substanciado pela racionalidade científica, garantindo novos critérios para salvaguardar a consistência do juízo crítico na articulação das ideias e teorias.

O debate em torno das ações que possam promover um avanço científico, tecnológico, econômico, político, social e cultural, passa, indelevelmente, por um modelo de educação crítica e reflexiva, capaz de articular as relações existentes entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Meio Ambiente, para uma compreensão mais consentânea sobre a natureza e propósito da ciência.[1]

A prosperidade material advinda do tipo de mentalidade desenvolvida pela cosmovisão científica do século XX, capitaneada pela racionalidade científico-empresarial, foi construída, acentuadamente, às custas da sociedade e das comunidades do seu entorno.

Esse modelo mental, enraizado na revolução industrial do século XVIII, inicialmente na Inglaterra, espalhando-se pelo mundo, possibilitou um grande desenvolvimento tecnológico, causou grandes transformações, como por exemplo, o surgimento da indústria e a consolidação do processo de formação do capitalismo e os parâmetros de sucesso empresarial, todavia relacionado exclusivamente à geração de mais dinheiro (lucro), a curto prazo.

Porém, esse “Mindset” mudou! Por exemplo, tem sido cada vez mais presente a discussão, no Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, sobre a importância das empresas servirem aos seus stakeholders, ou seja, basearem a sua estratégia no desenvolvimento das partes interessadas e não apenas dos seus acionistas.

O “capitalismo das partes interessadas” é uma forma de capitalismo em que as empresas buscam a criação de valor de longo prazo, levando em consideração as necessidades de todas as suas partes interessadas e da sociedade em geral.[2]

É imperativo que as organizações entendam que o bem-estar dos seus colaboradores, a satisfação dos clientes e da comunidade do entorno, o respeito ao meio ambiente e aos seus fornecedores, a transparência e a ética são essenciais para uma visão de prosperidade.

Além disso, no “capitalismo das partes interessadas”, aqueles que têm uma excelente ideia de negócio ou produto e não têm capital para colocá-la em prática, podem fazer uso de variadas ferramentas, entre as quais, o “Blended Finance” (Financiamento Combinado), em que pessoas físicas e jurídicas interessadas na iniciativa contribuem financeiramente para que a ideia seja concretizada, com a garantia de que o projeto/negócio apresente plano de negócio profissional, seja autossustentável e com retorno tanto para os investidores, quanto para a comunidade.

Uma boa oportunidade não costuma aparecer mais de uma vez, não havendo a mínima possibilidade de escolher o exato momento em que ela chegará, podendo a oportunidade se apresentar, inclusive, como uma pedra no meio do caminho, exigindo um permanente preparo, sendo o que define quem são os vencedores e quais são aqueles que ficam pelo caminho.

Para saber como uma mudança de “Mindset” cria as condições para a realização de projetos e negócios, faz-se mister, por um lado, conhecer como as pessoas interagem e, por outro lado, como elas respondem às mudanças.

A relação entre o conhecimento sobre as interações entre as pessoas envolvidas no projeto/negócio e as suas respostas às mudanças, pode estar ligada frontalmente à personalidade de seus líderes. Todavia, tal personalismo pode não ter como objetivo principal a geração de resultados.

Promover práticas de engajamento, construir um ambiente organizacional baseado na confiança e incentivar a colaboração e o aprendizado contínuo, ajuda a estabelecer uma relação mais aberta entre as pessoas da comunidade e seus líderes, permitindo maior abertura aos processos de mudança de “Mindset”.

Essa questão foi tema do Fórum Econômico Mundial, destacando que, em 2022, nada menos que 54% de todos os colaboradores, gestores e organizações necessitarão de uma reforma significativa e de qualificação profissional.[3]

Outro ponto importante para a mudança de “Mindset” é a participação ampliada com autogestão dos recursos captados para a realização de projetos, a qual contrapõe a participação restrita ou instrumental.

A participação ampliada é a capacidade que determinado grupo de interesse tem para influir direta ou indiretamente sobre as macroprioridades, as diretrizes, a formulação e reestruturação, a implementação de programas de política institucional ou pública.[4]

A mudança de “Mindset”possibilita a autogestão, a qual pode ser entendida como a auto-organização das coletividades locais para atender as necessidades de interesse comum[5], ajustando-se, por conseguinte, à atual etapa do capitalismo, a qual apresenta uma escala crescente de empreendimentos cooperativos baseados na autogestão.

Tendo surgido e se desenvolvido no movimento operário em meados do século XIX, na perspectiva de uma sociedade mais justa e igualitária, essa forma de organização do trabalho tem sido adotada (e adaptada) pelo movimento da Economia Solidária após o contexto de crise instaurado por volta da década de 1970.

A proposta da Economia Solidária, com sua política de Desenvolvimento Sustentável e a substituição da competição pela solidariedade na atividade econômica, surge como uma alternativa atraente à superação da crise agudizada pela pandemia do Covid 19, podendo, inclusive, ser absorvida pelo sistema complementando-o ao invés de substituí-lo.

Sem uma mudança radical no “Mindset”, baseando a estratégia no desenvolvimento de projetos e negócios que levem em consideração as “partes interessadas”, muitas líderes e gestores acabam não percebendo as diferenças entre uma organização social (Cooperativa, ONG, Fundação, OSCIP, etc.) e uma empresa privada tradicional, fazendo com que continuem agindo com os paradigmas e a racionalidade do século XX.

Na atual fase do capitalismo do século XXI, a questão fundamental a ser formulada não é apenas se uma organização atende às expectativas do mercado em que atua, mas se ela reúne condições, expressas por suas práticas gerenciais e pelo ambiente em que está inserida, de continuar a sê-lo no futuro.

Do ponto de vista prático, a mudança de “Mindset”, desenvolverá novos conceitos que criarão aportes teóricos inovadores para, inclusive, as análises gerenciais de risco, de investimento, de resultados, etc., ampliando o escopo dos métodos tradicionais e permitindo uma análise dinâmica da competitividade, bem como a correta compreensão do seu ambiente de negócio, presente e futuro.


[1] LENZI, Letícia. O problema da racionalidade da ciência no século XX e as implicações para um ensino crítico e reflexivo da ciência. História da Ciência e Ensino: construindo interfaces. Revista Eletrônica PUC. In, https://revistas.pucsp.br/index.php/hcensino/article/view/28947. Acessado em 05 de agosto de 2021.

[2]https://www.weforum.org/agenda/2021/01/klaus-schwab-on-what-is-stakeholder-capitalism-history-relevance. Acessado em 05 de agosto de 2021.

[3] Líderes são a chave da mudança do ‘mindset’ digital nas organizações.  Cristina Bertolino. 25 de fevereiro de 2020. In, Itforum. https://itforum.com.br/colunas/lideres-sao-a-chave-da-mudanca-do-mindset-digital-nas-organizacoes/. Acessado em 07 de agosto de 2021.

[4] AZEVEDO, S. de, PRATES, A. P. “Planejamento participativo, movimentos sociais e ação coletiva: a questão do Estado e populações periféricas no contexto brasileiro”. In Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu: ANPOCS, 1990.

[5] FOLLIS, M. “Autogestão”. In, BOBBIO, N., MATTEUCCI, N., PASQUINO, G. Dicionário de Política. São Paulo: UnB, 1983.

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